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GADO AKAUSHI CHEGA AO PAÍS
Raça japonesa atende projeto de cruzamento com Nelore para produção de carne ‘Premium’.
No início de junho, o Brasil recebeu oito bovinos vivos da raça pura Akaushi, gado taurino de origem japonesa, reconhecido mundialmente pela qualidade de sua carne, com alto grau de marmoreio (gordura entremeada), direcionada ao mercado gourmet. Os animais (seis touros e duas -vacas) foram importados dos Estados Unidos, pelo grupo Origine, com sede em Brasília, DF, e estão alojados em uma fazenda de Itatinga,interior de São Paulo, pertencente à Seleon “Biotecnologia, prestadora de serviços em coleta e processamento de sêmen e produção in vitro de embriões.
A presença de animais Akaushi no Brasil faz parte de uma segunda fase de um projeto iniciado há quatro anos, quando a Origine começou a importar doses de sêmen da raça da companhia norte-americana Heartbrand Beef, sediada no Texas, detentora do direito de uso da genética Akaushi fora do Japão. “Firmamos um grande acordo com a Heartbrand, que fez da Origine a propagadora exclusiva da carne Akaushi pelo mundo, tendo o Brasil como base para a multiplicação dessa genética, por meio do cruzamento industrial em vacada Nelore ou de outras raças”, conta o fundador e presidente da Origine, Júlio Resende.
Além do ineditismo, o desembarque de animais Akaushi no País representou o fim de uma barreira comercial de 13 anos com os Estados Unidos, que estavam impedidos de enviar bovinos vivos ao Brasil desde que foi registrado, em 2003, um caso da doença da vaca louca ( encefalopatia espongiforme bovina) naquele país. “Depois de muita negociação, conseguimos receber autorização do Ministério da Agricultura para importação desses animais”, continua Resende.
A carne do Akaushi é bastante difundida no Japão e Estados Unidos, mas a sua produção atende basicamente ao consumo interno de ambos os países. “O Brasil foi escolhido domo fornecedor mundial da iguaria por reunir todas as condições necessárias para a produção eficiente e sustentável de animais com essa genética”, enfatiza Resende.
Rede de pecuaristas
Em pleno andamento, o projeto da Origine conta atualmente com uma rede de cem fazendas parceiras no Brasil, que contam com cerca de 60 mil matrizes Nelore. Parte dessas matrizes tem sido inseminada com a raça Akaushi. Até agora, o número de doses de sêmen Akaushi importadas para o projeto alcança 250 mil. Até o momento, foi registrado o nascimento de 23 mil bezerros meio-sangue, gerados principalmente. em fazendas do sul do Pará e do Tocantins. Os animais meio-sangue resultantes são adquiridos pela empresa de Brasília e abatidos em frigoríficos terceirizados – a carne está sendo distribuída para redes de churrascarias e casas de carne do País. Até o momento, foram abatidos 5 mil animais meio-sangue, em frigoríficos terceirizados. “Em 2018, pretendemos inaugurar a primeira indústria própria de abate e industrialização da carne Akaushi, que será instalada em Estreito, no Maranhão”, revela o empresário, completando que a produção dos cortes especiais com a marca Origine será quase toda direcionada ao mercado externo.
Parceria
O programa de parceria de multiplicação de animais meio-sangue Akaushi segue conceito semelhante ao de outros projetos que buscam abastecer o promissor e exigente mercado de carne Premium. A Origine fornece sêmen a custo subsidiado aos parceiros, que lançam mão do cruzamento industrial e ficam responsáveis pela cria, recria e terminação dos animais. Na maioria das fazendas, o gado cruza Akaushi é mantido unicamente sob regime de criação a pasto, inclusive na fase _de terminação, sem necessidade de uso de ração. ”É um gado totalmente adaptado ao clima tropical brasileiro e que pode ser abatido precocemente, geralmente aos 20 a 22 meses de idade, com 18@”, afirma Resende. o momento da entrega dos animais, os parceiros recebem da Origine preço equiparado entre :fêmea e macho, com o adicional de até 12% sobre o valor da arroba na região da produção, hoje espalhada pelos Estados do Pará, Tocantins, Maranhão – mas há planos de expansão do projeto para Mato Grosso, Minas Gerais e Rio de Janeiro ainda neste ano. Resende diz que, apesar de ser trazido do Hemisfério Norte, o puro-sangue Akaushi pode pastejar em fazendas do Brasil Central sem sofrer desgaste físico, que compromete a produção de carne, com o forte calor característico dessas regiões, ao contrário de outras raças taurinas, como o Angus, de origem britânica. “É um gado rústico, de pêlo curto, bastante dócil, facilmente adaptável ao clima tropical brasileiro”, garante. No entanto, a preferência da empresa pelo meio-sangue Akaushi/Nelore, diz ele, levou em conta a decisão de produzir animais em larga escala e de maneira rápida. “O cruzamento industrial é a melhor receita para alcançar esse objetivo”, justifica.
Injeção de tecnologia
Os animais Akaushi importados dos EUA estão sendo mantidos em cocheiras na Estância Bela Vista, propriedade localizada a 7 km da Seleon Biotecnologia. Antes de entrar para a fase de coleta de sêmen dos touros Akaushi e aspiração de oócitos nas matrizes (para a produção in vitro de embriões), esses bovinos passam atualmente por uma etapa de pré-imunização contra doenças do carrapato, com duração de dois meses. Depois, o gado ainda cumprirá o procedimento normal de quarentena (para certificação da inexistência de tuberculose, brucelose, entre outras doenças), para, assim, começar a atividade de coleta de material genético em escala industrial.
Segundo Bruno Grubisich, proprietário e diretor-presidente da Seleon, a decisão de abrigar os animais Akaushi não foi por acaso. O empresário conta que, muito mais que uma prestadora de serviços em biotecnologia, a sua empresa será uma importante parceira da empresa Origine no processo de expansão da raça no Brasil. “Pretendemos montar um rebanho de animais puro-sangue Akaushi a partir dos seis touros e das duas fêmeas importadas”, conta Grubisich. Dessa maneira, continua, a Seleon vai utilizar a tecnologia da FIV (fertilização in vitro) para multiplicar com eficiência e maior rapidez esse rebanho, lançando mão do sêmen sexado de fêmea, para, assim, criar primeiramente um plantel de vacas puras Akaushi, a partir de embriões fecundados oriundos das duas matrizes importadas. ”No intervalo de um ano, pretendemos produzir de 80 a 100 animais de fertilização in vitro”, prevê Grubisich, acrescentando que a ideia é alargar a base da pirâmide de fêmeas, alcançando um número de cerca de 300 matrizes, para depois partir para a inseminação tradicional.
Utilizada há mais de cem anos pelos criadores japoneses,- a genética do Akaushi é protegida pelo governo do Japão, que a considera um dos tesouros nacionais do país. Além atender aos padrões de carne Premium, o gado Akaushi tem como característica a produção de carne saudável, diz o empresário Júlio Resende. “O animal é capaz de produzir um alto grau de gordura monoinsaturada, resultando em elevado índice de ácido oleico, o ômega 9, bem superior ao ômega 3 do salmão”, compara o empresário.
Publicação: Revista DBO – Junho de 2016
